A igreja pós-cristã da sociedade do espetáculo neoliberal

Sociedade do espetáculo é um título de um livro publicado em 1967 pelo filósofo francês Guy Debord, onde aborda a nova sociedade consumista do pós-Guerra. Mais ou menos na mesma época cunhava-se o conceito de neoliberalismo na Universidade de Chicago, e o “deus mercado” logo dominaria a sociedade. Você já deve ter ouvido várias vezes: “o mercado está agitado”, “o mercado está apreensivo”, o “mercado está preocupado”, “estão pressionando o mercado” e por aí vai.

Em 6 de janeiro deste ano, no aniversário de um ano da invasão ao Capitólio, li um artigo muito interessante de Russell Moore, na mais importante revista evangélica dos EUA, a Christiany Today, sobre Igreja Pós-cristã. Em que alega que o apoio evangélico a invasão, como um novo “cerco de Jericó”, revela, em suas palavras:

“Isso é um sinal não de uma cultura pós-cristã, mas de um cristianismo pós-cristão; não de uma sociedade secularizada, mas de uma igreja paganizadora.”

Concordo com Moore, mas quero ir além. A igreja pós-cristã vive na sociedade do espetáculo neoliberal, onde a lógica capitalista entrou nas igrejas. Sucesso não significa mais piedade, amor e justiça, mas “igrejas relevantes”, o que seria uma igreja relevante? Ora, uma igreja influente, que dite os rumos da sociedade, é preciso implantar a tal da “cosmovisão cristã”.

Nesta salada, a cruz, as torres, os sinos, os vitrais, não “comunicam mais”.Tudo, tudo mesmo é pensado na estética da TV e das redes sociais, atrair pessoas, lotar igrejas. A relevância do pastor e da igreja não está mais na palavra, mas no número de seguidores. Técnicas de choaching, marketing, administração de empresas foram divinizadas como “bíblicas”. Eis o cristianismo pagão!

Talvez Jesus esteja sentado no banco de uma igrejinha tradicional do interior ou de bairro, com 30 ou 50 pessoas, onde o pastor está preocupado em cuidar de suas ovelhas, ensinar a palavra, promover o amor e a justiça do Reino, ao invés de ser o rei do instagram e do tik tok. A lógica do mercado paganizou o mundo gospel, e as redes sociais, sua grande aliada, está aí mostrando o quanto ele é ridículo.

06 de Março de 2022

Primeiro Domingo da Quaresma de 2022

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